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E fez da vida ao fim…

breve intervalo

E fez da vida ao fim…

Deixando Galveias íamos em direcção a Redondo quando a tarde se instalava. Pelas duas da tarde estava um sol abrasador ainda no início de Maio, abrasador para quem é de frias terras e está habituado a outros sóis. Chegámos ao Alentejo e percebemos um Sol igualmente português, mas alentejano, não compassivo a sensibilidades térmicas. Pela nacional 224 esticámos pois as pernas em Galveias, uma terra pequenina e simpática, vislumbrar a pequenina terra de José Luís Peixoto, uma realidade tão distinta do Porto onde nasci. Embora não tenha particular interesse na obra de Peixoto, já o li e provavelmente lerei, parece-me ele ser dos poucos contemporâneos onde a escrita não brota do génio, porque génios não há, mas tem honestidade. Longo parecia o dia. Já em Redondo estávamos esfaimados, queríamos almoçar e a hora não ajudava. Encontrámos um restaurante ainda a servir e embora eu não tenha ficado muito contente com o meu arroz de pato, dadas as circunstâncias não me podia queixar! A sala era fresca e escura, algo contrastante com o exterior. Almoçámos e só pensávamos em chegar ao hotel. Rapidamente explorámos o centro de Redondo, um lugar pacato colorido. Uma feira do livro acontecia no jardim, onde a humildade da oferta debatia-se com a crueza dos preços. Estávamos estafados da viagem, cheios da beleza plana das rectas intermináveis da N224, passamos por um supermercado para uns abastecimentos, colocar gasolina e partimos então no calor para a Serra de Ossa. 

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A cadeia montanhosa com 653 metros de altura fica entre Estremoz e Redondo, e situado na Aldeia da Serra fica o Convento de São Paulo, hotel rural onde ficámos hospedados. Chegados e recebidos com simpatia, instalámo-nos. O calor era tanto que enquanto explorávamos alguns interiores do convento logo fomos experimentar a piscina. Refrescados, decidimos o resto da tarde para descansar.

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Para jantar fomos a Évora, onde de relance vimos a cidade o templo o fim do dia. Perto do templo romano é difícil não nos impressionarmos com a sua presença, as suas colunas coríntias altas graciosas a erguerem-se ao céu. O sol lançava os raios dourados sobre as antigas pedras onde ancestrais grandiosidades desse império presente passado são ainda emanadas. Belo pôr do sol o de Évora. Voltámos pela nacional numa exterior escuridão, rara de se conhecer. Éramos sozinhos fechados, nós e as nossas vozes numa caixa musical, numa estrada estreita no espaço imenso sem acontecimento. Um receio meu na felicidade, um receio lembrou-me "Animais Nocturnos", filme de Tom Ford tão mais artístico ao livro "Tony and Susan" de Austin Wright. Não existiam animais. Chegados, a terminar o primeiro dia, explorámos ainda o convento pela noite. Quanto tempo tem um dia?

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Os corredores amplos e tectos abobadados emolduram lustres antigos, a luz suave e mortiça desce sobre os corredores. As salas bem decoradas com velhos móveis, móveis elegantes, peças de arte sacra espalham-se à mistura e a capela principal adornada com belíssimos retábulos e imagens, aqui podemos encontrar contemplação, essa outra pose de religiosidade. O claustro, serenidade no coração do edifício. As suas arcadas graciosas erguem-se em torno do verdejante jardim com o murmúrio da fonte a pedra dos bancos o sentar na tranquilidade. Prometo ser breve nesse resto de dias em perfeição, difícil tempo meu aquele e ali num repente a minha vida resolvida. Agustina Bessa-Luís, mesmo quando fala sobre Vieira da Silva, sabe o suficiente da vida para ajudar a identificar largos dias destes. Estava a ser um outro espaço tempo, dia longo, e "Longos dias têm cem anos".

Acabei por não falar de uma das semanas de férias feitas no ano passado. Na verdade acabei por também não falar das do ano anterior, a ver se aos poucos lá chego. Decidimos em Maio de 2023 rumar ao Alentejo, o percurso foi longo e durante aquela semana não parámos. Agora numa angústia de ser, saudade de existir quero escrever essa semana, decidi começar esta série de posts. Não sei quanto vou falar dessa semana, quanto haverá a ser dito, mas este sentimento merece um registo para mais tarde não se ver apenas esquecido, isolado em mim.

Acordámos relativamente cedo e o primeiro destino traçado era Tomar. Chegados à cidade do Convento de Cristo, visitado de seguida, fomos antes tomar um pequeno almoço banal num café igualmente comum, onde a espera foi longa e a paciência não abundava. O dia era de sol na segunda semana de Maio, tivemos sorte para a aventura, o calor para o sul ainda era suportável e não sofremos com os rigores do inverno. Despachados do pequeno almoço rumámos ao convento, um gigante à distância, desproporcional no contexto da cidade. Ao chegar lembro as papoilas na terra, do aqueduto imponente e da entrada cheia de crianças a serem crianças, fugimos do caos, subimos e entramos no Convento de Cristo. 

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Durante a visita ficava o deslumbramento nas contradições do espaço. Da igreja não sei palavras para descrever, cada vez mais percebo o fascínio pela arte sacra. Lembro-me do José Saramago no seu "Viagem a Portugal", um dos seus melhores livros e desta sua predilecção. José assume no livro as suas paixões pelo convento desde portas a claustros, da charola na igreja dila ser "sol radiante e umbigo do mundo", mas da arquitectura, na sua subjectividade, lamenta um convento frio, seco, e direi eu por esse mesmo motivo ele me parecer quente. Conta ainda a história do guia dizendo-lhe todos quererem casar aqui, das pessoas arrancarem crostas de parede provavelmente para recordação e nisto Saramago determina "É proibir os casamentos." Proíbam-se. Também não sei palavras para a imponência das misturas arquitectónicas dentro do mesmo complexo em braço de ferro com a humilde pequenez dos dormitórios espalhados pelo interminável corredor. Ainda me lembro de ver a sala de aquecimento dos mesmos, onde manteriam o fogo aceso para direccionar quentura, e essas vidas distantes pareceram-me então mais próximas e semelhantes.

As fotografias excluem, diminuem a ida a um edifício que rasgou séculos, um exercício de contemplação e audição de tempo, vida, a minha tentativa de decifrar esses sentires impregnados nas pedras. Terminada a visita, mente em espanto, manhã avançada, carro de novo e caminho a Redondo onde íamos almoçar e ficar. Antes parámos para esticar as pernas em Galveias, ver num piscar de olhos a terra do escritor José Luís Peixoto. A preguiça já me fala, lembro as papoilas na terra, vou parar para esticar as pernas e disto falo num próximo post.

Sobre

21aafb00b84d1f9249b0b9a10481d2f3.pngO blog enquanto página pessoal tem como objectivo trazer um registo da vida que se insurge à correria do dia a dia, intervalos no intervalo. O "breve intervalo" surge como pausa, reflexão e memória do não empregue nos meus cadernos. Ao fim, essa outra vida trivial: a das opiniões, dos passeios, do não se querer esquecer e manter em permanente rascunho.

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