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E fez da vida ao fim…

breve intervalo

E fez da vida ao fim…

É inspirador ver como Santo Agostinho em "Confissões" se questiona, de como as suas dúvidas continuam a ressoar e a desafiar leitores ainda hoje. A memória da sua história de conversão é fascinante na partilha das lutas e dúvidas até ter encontrado a fé. Tocou-me particularmente a questão do seu pai, o sofrimento abnegado da sua mãe, o seu sofrimento por ela e como ambos acabam por perdoar aquele homem. "Confissões" é uma jornada interior e proporciona uma visão íntima do processo de transformação espiritual, coloca questões universais sobre o significado da vida e existência de Deus e do Homem. Os questionamentos de Agostinho sobre o Tempo são além de interessantes também eles, até ver, humanamente atemporais. 

"Confessions" Saint Agustine, Penguin Books

"No one wants to sleep for ever, for everyone rightly agrees that is better to be awake."

O Tempo enquanto dimensão da nossa existência e a sua tentativa de compreensão dessa natureza é complexa e filosoficamente desafiante. Deixa-nos uma série de perguntas a serem pensadas, algo para mim mais importante a deixar respostas prontas. Nas suas reflexões sobre o Tempo somos convidados a contemplar nossa própria relação com este e o seu peso na nossa compreensão do ser e realidade. Era para ser lido em 2021, projeto falhado. Este post é um pequeno lembrete, tenta chegar à superfície desta última leitura de Fevereiro, terminada com um leve sorriso no conforto de quem procura.

Fiz este meu vídeo sobre a minha leitura de "Sol" de D. H. Lawrence há mais de dois anos, publiquei-o a 19 de Dezembro de 2021. Quis explorar este conto impressionista com uma ponte à obra de Claude Monet em particular a sua pintura "Impressão, nascer do sol", a qual gosto particularmente. Tentei destacar a importância de Monet como um marco no impressionismo, a técnica, a sua abordagem inovadora no uso de cores e luz, como desafiou convenções. O ensaio do vídeo surgiu-me como interseção entre as duas formas de expressão, a sua partilha além do movimento artístico, um entendimento possível e não convencional do horror, de uma cor.  Interessados na essência da alma humana podemos continuar a aprender com eles. Morte e transcendência pela luz e pela cor? Azul

No ensaio "O Silêncio dos Livros" George Steiner começa por considerar o limitado período de tempo ao qual temos acesso a ler, e facilmente percebemos estar mais distanciado o épico de Gilgamesh da Bíblia do que esta de Ulysses. A nossa compreensão literária não abarca todo o espectro da existência humana e é nesse contexto que Steiner nos conduz à relação entre Mestres e discípulos: presenças reais, onde realça todo o escrito ter uma ordem contratual pois implica entre autor e leitor uma promessa de sentido. A oralidade surgiu enquanto verdade, uma honestidade necessária à autocorrecção, democracia enquanto partilha comum. O surgimento do texto escrito invalidou tudo isto. A oralidade implica uma reactualização da memória, já o livro (ou até os computadores actuais) convida à amnésia. Os evangelhos surgiram por esta urgência da não existência de um tempo para o cultivo e apuramento da memória oral. A questão da memória é exemplificada no único momento em que Jesus é relatado a escrever. Ele escreveu na areia e logo apagou o escrito sem sabermos o que disse.  A Idade de Ouro do Livro diz-nos da actual perda do silêncio enquanto luxo, fomos invadidos por álbuns de música e novas tecnologias: Hegel e Kierkegaard foram os primeiros a notar a aceleração temporal vivida. Steiner neste capítulo defende o tempo livre para leitura séria ser quase exclusivo de académicos e investigadores. No geral matamos tempo em vez de nos sentirmos à vontade dentro dos seus limites.

No terceiro capítulo, As duas correntes contestatárias, lemos sobre a primeira contestação ao livro. Steiner chama-a de “bucolismo radical” e, neste contexto, a leitura é relegada a um papel secundário. Primeiro devemos dar-nos à vida, viver e correr riscos. Neste enquadramento, ler é um acto de renúncia à vida por recusa dos riscos e relação primária e primeira com o mundo. A segunda contestação ao livro surge em função da primeira: para o homem comum roupa e comida serão mais importantes às grandes obras literárias. Chegamos assim ao meu querido Tolstoi e à sua fase final de vida. Tendo noção de ser o melhor dos escritores relegou toda a sua obra. Uma versão simplificada dos evangelhos, num essencial de Cristo, diz ser toda a literatura necessária. Tolstoi sabia da ausência da escrita nos ensinamentos de Jesus e tinha-o como uma bênção. Porém o questionamento de Keats subsiste: como alguém ousa escrever tragédia depois de Hamlet e Rei Lear? Uma solução é a de Ezra Pound pela rejeição do peso asfixiante do passado.

Os livros são também objectos frágeis, tantos foram submetidos ao fogo e ainda hoje grandes obras estão em perigo. Entre os exemplos termina com o ardido "Aretino" de Georg Büchner e eu lembrei-me agora do incompleto "Almas Mortas" do Nicolai Gógol. Em Novas Ameaças continua a falar de um outro silêncio, o silenciamento de livros nas democracias actuais. Analisa o perigo da literatura subversiva em contextos específicos, defendendo, no entanto, a liberdade. A chegada dos meios electrónicos levou curiosamente a um aumento dos livros impressos em formato físico, mas este aumento é um dos maiores inimigos dos próprios livros ao perderem-se no número e não conseguirem uma aprovação social e crítica imediata. As gerações da televisão e da internet parecem cada vez mais incapazes de desfrutar da leitura em silêncio. Esta é uma mudança rápida a acontecer, uma transição ainda a perceber e que pode terminar com a dita leitura clássica, o silêncio, o saber-se de cor(ação).

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O escândalo do livro reside no facto da erudição e cultura não nos salvarem da barbárie. A Europa do século 20 testemunhou-o na Alemanha, onde o nível cultural elevado não impediu a ideia de o único erro possível era ser-se judeu. Grandes pensadores foram apanhados em teias de pensamentos dúbios: Sartre no seu apoio comunista, atestando todo o anti-comunismo como uma inferioridade e ignorando as selvajarias cometidas pelo comunismo. Se nos sensibilizamos com Proust e se a Bovary vai viver para sempre, enquanto leitores vamos ficando sintonizados para uma sensibilidade sobre a ficção. As desgraças entregues pelos media chegam-nos e preocupam-nos. Com tudo isto tendemos a ignorar a realidade primária, o grito ouvido pela janela. Isto lembra-me o conto "O Silêncio" de Sophia de Mello Breynner Andreson no qual precisamente o primeiro grito ouvido por Joana lhe rompe a realidade e actua como ferida. Joana ao não ignorar o grito volta a si já estrangeira de si mesma. Na prática das humanidades, a leitura e estudo de livros podem paradoxalmente desumanizar. Sendo professor, Steiner não possui resposta para este problema.

Para finalizar, o livro tenta um contraponto, "Esse Vício Ainda Impune", elaborado por Michel Crépu. Este ensaio é extremamente interessante no estabelecimento de uma verdade entre a gravidade e leveza dos questionamentos destas duas visões. Será que podem os dois estar correctos? Talvez estejam. Se inicialmente podemos estar de acordo com Steiner, pelo final, Crépu pode ajudar-nos a moderar os seus próprios ideais através das ideias mais pesadas de Steiner, um caminho de pensamento infinito. Neste confronto, parece haver promessas de sentido não realizadas. Ou, melhor ainda, quantas interpretações podemos extrair de uma pergunta? Quanto a mim, em relação à questão mais simples e envolvente, antes, durante e depois desta leitura de agosto, expresso minha gratidão pelo silêncio nos e com os livros.

Para dezembro continuo a ler o "Confissões" de Santo Agostinho e "Stories of Books and Libraries" da Everyman. "Serotonina" foi o meu segundo Houellebecq e para já prefiro o "Partículas Elementares", talvez pelo vinculo estabelecido com "Admirável Mundo Novo" do Aldous Huxley. Ainda mantenho a ideia deste escritor dificilmente ser capaz de me surpreender com um mau livro ou menos literário. Este em particular não acho inesquecível, relevante por um retrato das nuances da sociedade actual e isto já é fazer muito. A problemática da exploração e sofrimento animal, da insuficiente produção alimentar, a internet. A promessa química de uma forma de sofrimento menos emocional, a entrega da libido como forma de pagamento a uma outra lucidez não necessariamente para agir de forma a um fim diferente. Li o segundo volume de "1Q84", estou a gostar bastante do livro e já iniciei a terceira parte. Tenho uma relação diferente com este escritor, talvez estabelecida nos mesmos parâmetros dos seus livros, com emoções diferentes, de natureza mais inexplicável e contemplativa. Até ver pode este ser o meu livro favorito do Murakami. "Hiroshima" de John Hersey é um livro breve e no qual me demorei. São facultados ao leitor seis testemunhos de sobreviventes ao ataque americano a "Hiroshima". As várias descrições foram complicadas de assimilar e preferia então parar a leitura de forma recorrente. Achei uma leitura muito boa por acrescentar e, ao contrário do belo "Oppenheimer", necessária.

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Para finalizar "Viagem ao País da Manhã" e "A Escavação" de Hermann Hesse e Andrei Platónov. É o meu quarto livro do Hesse, um escritor com qual me desentendi em "Narciso e Goldmund" e "O Lobo da Estepe", não pela escrita mas por razões mais metafísicas, de me fazer revirar os olhos. Comecei as pazes com Hesse em Siddhartha e agora neste pequeno livro (o meu favorito até ver). Já tenho em mim a promessa de reler os dois primeiros livros novamente. O Platónov foi uma estreia (entretanto já encomendei o "Djan ou a Alma"), apreciei particularmente a força dos lirismos e a crueldade descritiva sem drama associado. "A Escavação" surge como parábola onde o escritor actua como um Dostoievski com modos de Chekhov num enredo de Kafka, um talvez familiar literário de Saramago. Isto não diz nada do Platónov, é a minha tentativa de engavetar um escritor do qual pouco tinha a esperar e com o qual, apesar dos terrores socialistas, terminei novembro muito bem.

 

Desde que decidimos viver juntos a nossa colecção de livros naturalmente cresceu. Logo aquando a junção das estantes tornou-se-me cada vez mais difícil ter uma ideia clara de todos os livros que temos. Foi então no início de Setembro que pensei utilizar a recente conta no The StoryGraph (uma óptima alternativa ao Goodreads) e durante praticamente um mês a nossa lista de livros foi-se concretizando. Alguns dias listava apenas só um cubo em outros nenhum e no último dia uma pequena maratona hercúlea, a última estante de uma única empreitada. Grande parte dos livros não existiam ainda na base de dados, pelo menos com as nossas edições, foi custoso ter de acrescentar mais de um milhar de livros, capas, número de páginas, sinopses... um filme. Neste post quero registar a experiência de ver pela primeira vez todos os livros de casa listados e como o The StoryGraph pode ou não surpreender com a análise estatística dos dados da nossa biblioteca. Conto que seja o primeiro de vários posts a devanear sobre os meus dados de leitura.

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Ao todo listei 1481 livros, é este o número total da nossa biblioteca no momento. Sendo necessário destacar o facto de os ebooks não estarem todos devidamente listados, mas apenas os já lidos. Os que temos e estão por ler decidi por praticidade (e preguiça) não listar. Deste 1481 livros posso já concluir que temos uma biblioteca maioritariamente de natureza reflectiva, desafiante e emotiva. Poderia continuar dizendo ser uma biblioteca obscura, de aventuras e mistério, por aí segue. Se algum dia me perguntassem qual seria a principal traço da soma dos nossos livros não chegaria a um reflexivo e sabê-lo agrada-me. 

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Do já dito era fácil prever o tipo de formato principal da biblioteca ser o livro físico. Pouco podem os 2% de livros electrónicos fazer em relação a isto. Cá em casa penso ser eu o que ainda vai espreitando mais o Kindle, no geral preferimos ambos os livros físicos. Acho que não posso escrutinar qual a quantidade de capas duras e moles, mas adivinho que apesar de os paperbacks existirem em maioria, não seria uma diferença tão discrepante assim. Há muitas capas duras cá por casa.

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Em relação ao ritmo de leitura compramos maioritariamente livros de ritmo lento (51%) e intermédio (43%). Os 6% em livros de leitura rápida mostram que naturalmente não tendemos para comprar este tipo de livros. Isto não significa não se gostar de livros assim. Terei futuramente de averiguar dentro destes 74 livros (6%) que livros estão incluídos, quais li e o que acho dos mesmos. 

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Já o número de páginas encontra-se mais distribuído. Na maioria os livros têm menos de 300 páginas (47%), 693 livros na verdade, logo seguidos por livros de 300-499 páginas (30% - 447 livros) e por fim 23% dos 340 calhamaços com mais de 500 páginas. Pode-se assim constatar que a razão entre o número de livros comprados e  as páginas que possuem é inversamente proporcional.

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A relação ficção/não ficção fiquei um pouco triste ao constatar que não possuímos nem 25% de não ficção nas estantes. Algo a mudar de futuro, comprar mais não ficção e estes meros 20% representam 289 livros de não ficção e assim a história já não me parece tão feia!

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Relativamente aos géneros talvez seja onde coloco mais dúvidas na devida identificação, onde possa ir ocorrendo maior número de mudanças consoante cada livro for devidamente ajustado na sua catalogação. Mesmo assim não me espanta um primeiro lugar esmagador para os clássicos (684), e logo de seguida livros de teor mais literário, não contava com históricos e contos terem uma expressão tão elevada (160 livros), fiquei contente, principalmente pelos contos. Achava termos bem mais ficção científica (68 livros), algo onde se pode investir ainda à vontade. A poesia parece-me muito bem representada, um nono lugar correspondente a 89 livros.

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Em relação a autores, algumas coisas surpreenderam-me, mas começo pelo óbvio. O escritor com maior número de livros cá em casa é o António Lobo Antunes (38 livros), o segundo lugar foi uma surpresa tendo em conta até à data só eu o ler, Stephen King com uns jeitosos 26 livros. O bronze vai para José Saramago (26) e na corrida chega logo atrás o Murakami (21). Virginia Woolf surge-nos em quinto num empate com Jorge de Sena (20) e Proust apresenta-se em sexto com 17 livros, impressionante se pensarmos que a sua obra facilmente se resume no geral a um livro de 7 volumes, mas temos eventualmente algum ensaio, os contos e lá ocupa uma posição inesperada. A lista termina com Dostoevsky e Sophia de Mello Breyner Andrensen empatados (16) e Tolkien (15). Dizer escandaloso não ter mais Fiodór e isso ter de ser alterado. 

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Nas línguas parece-me existir uma distribuição equilibrada, ganha claro o português com 73,3% e logo de seguida o inglês a ocupar mais de 25%, com 395 livros. Por fim um único livro em espanhol, Javier Marias com o seu " Corazon Tan Blanco". Provavelmente outros em espanhol chegarão. Achamos uma tradução horrível da Alfaguara para este escritor, decidimos então pela provável leitura da obra no original.

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Quase a terminar esta primeira abordagem, e de forma feliz q.b., de todos os livros comprados tenho 44% lidos e 56% por ler. Em termos de números tudo escala facilmente, vejamos, 645 livros lidos e 836 por ler. Nestes livros por ler não estão incluídos livros repetidos com edições diferentes, isto é, temos 108 livros repetidos em edições diferentes das que já li. Mais, há umas quantas edições literalmente repetidas não listadas e não entram em todas estas contas, esqueci-me aqui também das repetidas do The Great Gatsby.

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Para terminar este primeiro post sobre a biblioteca cá de casa, dizer que o meu average rating é de 4,28 estrelinhas. Tenho ali bastantes leituras com 5 estrelas (136 livros). Para futuro, mesmo nas releituras, tentar perspectivar a minha relação com todos estes livros. Acho difícil entendê-los todos em mim como perfeitos ou insuperáveis, portanto alguns poderão descer ligeiramente para uma melhor percepção do que tenho por favoritos dos favoritos, vou colocar a questão nestes termos. Tirando este detalhe, a distribuição revela no geral os nossos livros não me desagradarem, cá em casa parece escolher-se bem o que se quer ter para ler. Os livros com avaliação inferior a 3 estrelas são cerca de 20 e para alguns destes talvez ainda me tenha de redimir, a título de exemplo "Um Quarto Com Vista" do E. M. Forster. Disto falarei num outro post sobre as minhas leituras e a biblioteca cá de casa. 

As representações do padrão a ser seguido pouco mudam nas redes sociais. Se algum conceito alastra, estabelecendo-se comum, fica difícil existir online com alguma alternativa menosprezada por esse fluxo social principal. As redes no geral convidam à anulação do indivíduo, à propagação da idiotia pela conformidade e não contrastante da existência de conflito de ideias e visões. Ao podermos ser tudo o que quisermos, normalmente creio as pessoas escolherem ser o outro. Nisto fico com a certeza da resposta à pergunta se serão as opções escolhidas pela maioria realmente as melhores.

Há bastante tempo estava descontente com a forma como o Goodreads estagnou a sua plataforma, a forma pouco prática como a rede social se estabelecia priorizando talvez o mais importante para Bezos, não tanto o utilizador e as suas leituras. Na pandemia, em  2020, soube do surgimento de uma alternativa ao Goodreads, o The StoryGraph. Na altura a plataforma ainda estava em fase beta e vi então o seu potencial mas ainda limitado. Passados três anos reencontro a plataforma viva e de boa saúde, agora coesa e cheia de funcionalidades para quem gosta de rastrear as suas leituras, de estatísticas, mas não tanto de utilizar a rede como mais uma ferramenta com foco principal no social, aqui utilizando a desculpa dos livros para exercício de vaidade. Não vou discutir as funcionalidades, não é o meu propósito. Lá regressei e fiquei no The StoryGraph e estou muito contente naquele canto. Não sei quando vou apagar a conta do Goodreads, já a tinha apagado anteriormente, ia com mais de uma década de registos de leituras (do qual não fiz backup), ficará a conta para já estagnada e o The StoryGraph passa a ser a minha escolha.

Acho determinante ter sido criado por uma mulher negra, Nadia Odunayo, engenheira informática. Não que o facto seja justificativo da escolha, mas antes um asserto da qualidade do trabalho desenvolvido por mulheres e existir enquanto resposta a certos espaços monopolizantes de homens normativos brancos onde nada há a oferecer além desse grande fluxo social da idiotia a servir essa existência por si só já priviligiada, se podemos falar em níveis diversos de privilégio. A estimular o desenvolvimento seja do valor intrínseco associado a algo, do que surge como alternativa com soluções e foco no que é, até ver, importante a esses utilizadores. Os livros, as leituras dos indivíduos. Alguma socialização em volta disso e não o contrário, para isso já temos também o Instagram.

A obra de José Saramago é conhecida pela sua habilidade em explorar cenários partindo de uma suposição inicial "E se". E se as pessoas deixassem de morrer, e se alguém descobrisse ter outra pessoa igual a si, são exemplos. Dois dos seus livros, "Ensaio Sobre a Cegueira" e "Ensaio Sobre a Lucidez", não compartilham apenas semelhanças no título. Questionam respectivamente: e se uma cegueira branca atingisse a humanidade, e se um dia as pessoas votassem todas em branco? Queria rabiscar sobre a minha experiência com os dois livros, como se ligam em mim, cegueira e lucidez a entrelaçar-se no branco e pelo final só me resta um incómodo profundo.

O "Ensaio Sobre a Cegueira" apresenta-nos uma sociedade afectada por um surto de cegueira branca. Conforme a cegueira espalha-se as personagens enfrentam uma luta pela sobrevivência numa sociedade em colapso. Esta cegueira pode ser vista como metáfora para a falta de empatia, compreensão ou num sentido mais amplo, conexão humana. No "Ensaio Sobre a Lucidez", que pode ser entendido como uma sequela, o José Saramago mais uma vez joga com a metáfora da cegueira, agora de forma não tão óbvia. Na lucidez a cegueira assume a forma de ilusão, a ilusão dos votos brancos numa eleição. Quando a maioria dos votos da eleição são brancos a sociedade fica perplexa e a história desenvolve-se na exploração das ramificações políticas e sociais do acontecimento. A lucidez surge como a rejeição da complacência e uma busca por clareza moral e política, uma antítese à cegueira generalizada do primeiro livro. Ainda assim esta lucidez de alguma forma deixa-se cegar.

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Um aspecto intrigante (ou não tanto) destes dois livros é a presença da mulher do médico e do cão das lágrimas. A mulher do médico destaca-se em "Ensaio Sobre a Cegueira" e o cão assume um papel ainda mais relevante no "Ensaio Sobre a Lucidez". Ambos podem ser interpretados como um símbolo da conexão emocional e fidelidade resistente aos desafios do caos branco. A cegueira branca e os votos brancos podem ser interpretados enquanto factores, de omissão e acção respectivamente, expositores da complexidade política e social da democracia. Esta mulher outrora unificadora num mundo de cegos, num mundo onde há novamente visão avista-se disruptiva, perigosa e ninguém atenta à sua vulnerabilidade. Se na cegueira o declínio foi garantido, nas eleições há que ser evitado. Se inicialmente o branco tira a visão às pessoas, quando a cegueira desaparece o poder da cor fica nas mãos do povo, agora sem véus e vendo realmente, o voto expressa-se na mesma cor branca, quase atestando estávamos cegos mas já não. Os dois livros apontam ilusões dos sistemas políticos onde nos inserimos. No extremo a lucidez desestabilizou a (pseudo)democracia, enfraquecendo o seu funcionamento e a integridade do indivíduo é colocada em causa. Nos dois contextos o branco impõe questões intrusivas. Os dois ensaios entregam o preço social de quem não cegou física nem mentalmente.

Gosto dos dois livros já os li há muito, até já reli "O Ensaio sobre a Cegueira". Entendo como necessário o final do "Ensaio sobre a Lucidez" e ainda estou longe de desculpar o José. A sociedade não tem a coragem da mulher do médico, ela nunca cegou e isto pesou-lhe como um estigma. O feito em "Ensaio Sobre a Lucidez" é imperdoável, só justificado em nome de uma aprendizagem maior, colocando uma espécie de maldição no próprio Saramago. O criador aniquila a criação, o que amas ser-te-á vedado. De alguma forma diz estás a ler és responsável, sente-se como um livro maldito.

Sobre

21aafb00b84d1f9249b0b9a10481d2f3.pngO blog enquanto página pessoal tem como objectivo trazer um registo da vida que se insurge à correria do dia a dia, intervalos no intervalo. O "breve intervalo" surge como pausa, reflexão e memória do não empregue nos meus cadernos. Ao fim, essa outra vida trivial: a das opiniões, dos passeios, do não se querer esquecer e manter em permanente rascunho.

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