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E fez da vida ao fim…

breve intervalo

E fez da vida ao fim…

Desde que decidimos viver juntos a nossa colecção de livros naturalmente cresceu. Logo aquando a junção das estantes tornou-se-me cada vez mais difícil ter uma ideia clara de todos os livros que temos. Foi então no início de Setembro que pensei utilizar a recente conta no The StoryGraph (uma óptima alternativa ao Goodreads) e durante praticamente um mês a nossa lista de livros foi-se concretizando. Alguns dias listava apenas só um cubo em outros nenhum e no último dia uma pequena maratona hercúlea, a última estante de uma única empreitada. Grande parte dos livros não existiam ainda na base de dados, pelo menos com as nossas edições, foi custoso ter de acrescentar mais de um milhar de livros, capas, número de páginas, sinopses... um filme. Neste post quero registar a experiência de ver pela primeira vez todos os livros de casa listados e como o The StoryGraph pode ou não surpreender com a análise estatística dos dados da nossa biblioteca. Conto que seja o primeiro de vários posts a devanear sobre os meus dados de leitura.

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Ao todo listei 1481 livros, é este o número total da nossa biblioteca no momento. Sendo necessário destacar o facto de os ebooks não estarem todos devidamente listados, mas apenas os já lidos. Os que temos e estão por ler decidi por praticidade (e preguiça) não listar. Deste 1481 livros posso já concluir que temos uma biblioteca maioritariamente de natureza reflectiva, desafiante e emotiva. Poderia continuar dizendo ser uma biblioteca obscura, de aventuras e mistério, por aí segue. Se algum dia me perguntassem qual seria a principal traço da soma dos nossos livros não chegaria a um reflexivo e sabê-lo agrada-me. 

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Do já dito era fácil prever o tipo de formato principal da biblioteca ser o livro físico. Pouco podem os 2% de livros electrónicos fazer em relação a isto. Cá em casa penso ser eu o que ainda vai espreitando mais o Kindle, no geral preferimos ambos os livros físicos. Acho que não posso escrutinar qual a quantidade de capas duras e moles, mas adivinho que apesar de os paperbacks existirem em maioria, não seria uma diferença tão discrepante assim. Há muitas capas duras cá por casa.

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Em relação ao ritmo de leitura compramos maioritariamente livros de ritmo lento (51%) e intermédio (43%). Os 6% em livros de leitura rápida mostram que naturalmente não tendemos para comprar este tipo de livros. Isto não significa não se gostar de livros assim. Terei futuramente de averiguar dentro destes 74 livros (6%) que livros estão incluídos, quais li e o que acho dos mesmos. 

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Já o número de páginas encontra-se mais distribuído. Na maioria os livros têm menos de 300 páginas (47%), 693 livros na verdade, logo seguidos por livros de 300-499 páginas (30% - 447 livros) e por fim 23% dos 340 calhamaços com mais de 500 páginas. Pode-se assim constatar que a razão entre o número de livros comprados e  as páginas que possuem é inversamente proporcional.

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A relação ficção/não ficção fiquei um pouco triste ao constatar que não possuímos nem 25% de não ficção nas estantes. Algo a mudar de futuro, comprar mais não ficção e estes meros 20% representam 289 livros de não ficção e assim a história já não me parece tão feia!

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Relativamente aos géneros talvez seja onde coloco mais dúvidas na devida identificação, onde possa ir ocorrendo maior número de mudanças consoante cada livro for devidamente ajustado na sua catalogação. Mesmo assim não me espanta um primeiro lugar esmagador para os clássicos (684), e logo de seguida livros de teor mais literário, não contava com históricos e contos terem uma expressão tão elevada (160 livros), fiquei contente, principalmente pelos contos. Achava termos bem mais ficção científica (68 livros), algo onde se pode investir ainda à vontade. A poesia parece-me muito bem representada, um nono lugar correspondente a 89 livros.

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Em relação a autores, algumas coisas surpreenderam-me, mas começo pelo óbvio. O escritor com maior número de livros cá em casa é o António Lobo Antunes (38 livros), o segundo lugar foi uma surpresa tendo em conta até à data só eu o ler, Stephen King com uns jeitosos 26 livros. O bronze vai para José Saramago (26) e na corrida chega logo atrás o Murakami (21). Virginia Woolf surge-nos em quinto num empate com Jorge de Sena (20) e Proust apresenta-se em sexto com 17 livros, impressionante se pensarmos que a sua obra facilmente se resume no geral a um livro de 7 volumes, mas temos eventualmente algum ensaio, os contos e lá ocupa uma posição inesperada. A lista termina com Dostoevsky e Sophia de Mello Breyner Andrensen empatados (16) e Tolkien (15). Dizer escandaloso não ter mais Fiodór e isso ter de ser alterado. 

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Nas línguas parece-me existir uma distribuição equilibrada, ganha claro o português com 73,3% e logo de seguida o inglês a ocupar mais de 25%, com 395 livros. Por fim um único livro em espanhol, Javier Marias com o seu " Corazon Tan Blanco". Provavelmente outros em espanhol chegarão. Achamos uma tradução horrível da Alfaguara para este escritor, decidimos então pela provável leitura da obra no original.

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Quase a terminar esta primeira abordagem, e de forma feliz q.b., de todos os livros comprados tenho 44% lidos e 56% por ler. Em termos de números tudo escala facilmente, vejamos, 645 livros lidos e 836 por ler. Nestes livros por ler não estão incluídos livros repetidos com edições diferentes, isto é, temos 108 livros repetidos em edições diferentes das que já li. Mais, há umas quantas edições literalmente repetidas não listadas e não entram em todas estas contas, esqueci-me aqui também das repetidas do The Great Gatsby.

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Para terminar este primeiro post sobre a biblioteca cá de casa, dizer que o meu average rating é de 4,28 estrelinhas. Tenho ali bastantes leituras com 5 estrelas (136 livros). Para futuro, mesmo nas releituras, tentar perspectivar a minha relação com todos estes livros. Acho difícil entendê-los todos em mim como perfeitos ou insuperáveis, portanto alguns poderão descer ligeiramente para uma melhor percepção do que tenho por favoritos dos favoritos, vou colocar a questão nestes termos. Tirando este detalhe, a distribuição revela no geral os nossos livros não me desagradarem, cá em casa parece escolher-se bem o que se quer ter para ler. Os livros com avaliação inferior a 3 estrelas são cerca de 20 e para alguns destes talvez ainda me tenha de redimir, a título de exemplo "Um Quarto Com Vista" do E. M. Forster. Disto falarei num outro post sobre as minhas leituras e a biblioteca cá de casa. 

As representações do padrão a ser seguido pouco mudam nas redes sociais. Se algum conceito alastra, estabelecendo-se comum, fica difícil existir online com alguma alternativa menosprezada por esse fluxo social principal. As redes no geral convidam à anulação do indivíduo, à propagação da idiotia pela conformidade e não contrastante da existência de conflito de ideias e visões. Ao podermos ser tudo o que quisermos, normalmente creio as pessoas escolherem ser o outro. Nisto fico com a certeza da resposta à pergunta se serão as opções escolhidas pela maioria realmente as melhores.

Há bastante tempo estava descontente com a forma como o Goodreads estagnou a sua plataforma, a forma pouco prática como a rede social se estabelecia priorizando talvez o mais importante para Bezos, não tanto o utilizador e as suas leituras. Na pandemia, em  2020, soube do surgimento de uma alternativa ao Goodreads, o The StoryGraph. Na altura a plataforma ainda estava em fase beta e vi então o seu potencial mas ainda limitado. Passados três anos reencontro a plataforma viva e de boa saúde, agora coesa e cheia de funcionalidades para quem gosta de rastrear as suas leituras, de estatísticas, mas não tanto de utilizar a rede como mais uma ferramenta com foco principal no social, aqui utilizando a desculpa dos livros para exercício de vaidade. Não vou discutir as funcionalidades, não é o meu propósito. Lá regressei e fiquei no The StoryGraph e estou muito contente naquele canto. Não sei quando vou apagar a conta do Goodreads, já a tinha apagado anteriormente, ia com mais de uma década de registos de leituras (do qual não fiz backup), ficará a conta para já estagnada e o The StoryGraph passa a ser a minha escolha.

Acho determinante ter sido criado por uma mulher negra, Nadia Odunayo, engenheira informática. Não que o facto seja justificativo da escolha, mas antes um asserto da qualidade do trabalho desenvolvido por mulheres e existir enquanto resposta a certos espaços monopolizantes de homens normativos brancos onde nada há a oferecer além desse grande fluxo social da idiotia a servir essa existência por si só já priviligiada, se podemos falar em níveis diversos de privilégio. A estimular o desenvolvimento seja do valor intrínseco associado a algo, do que surge como alternativa com soluções e foco no que é, até ver, importante a esses utilizadores. Os livros, as leituras dos indivíduos. Alguma socialização em volta disso e não o contrário, para isso já temos também o Instagram.

A obra de José Saramago é conhecida pela sua habilidade em explorar cenários partindo de uma suposição inicial "E se". E se as pessoas deixassem de morrer, e se alguém descobrisse ter outra pessoa igual a si, são exemplos. Dois dos seus livros, "Ensaio Sobre a Cegueira" e "Ensaio Sobre a Lucidez", não compartilham apenas semelhanças no título. Questionam respectivamente: e se uma cegueira branca atingisse a humanidade, e se um dia as pessoas votassem todas em branco? Queria rabiscar sobre a minha experiência com os dois livros, como se ligam em mim, cegueira e lucidez a entrelaçar-se no branco e pelo final só me resta um incómodo profundo.

O "Ensaio Sobre a Cegueira" apresenta-nos uma sociedade afectada por um surto de cegueira branca. Conforme a cegueira espalha-se as personagens enfrentam uma luta pela sobrevivência numa sociedade em colapso. Esta cegueira pode ser vista como metáfora para a falta de empatia, compreensão ou num sentido mais amplo, conexão humana. No "Ensaio Sobre a Lucidez", que pode ser entendido como uma sequela, o José Saramago mais uma vez joga com a metáfora da cegueira, agora de forma não tão óbvia. Na lucidez a cegueira assume a forma de ilusão, a ilusão dos votos brancos numa eleição. Quando a maioria dos votos da eleição são brancos a sociedade fica perplexa e a história desenvolve-se na exploração das ramificações políticas e sociais do acontecimento. A lucidez surge como a rejeição da complacência e uma busca por clareza moral e política, uma antítese à cegueira generalizada do primeiro livro. Ainda assim esta lucidez de alguma forma deixa-se cegar.

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Um aspecto intrigante (ou não tanto) destes dois livros é a presença da mulher do médico e do cão das lágrimas. A mulher do médico destaca-se em "Ensaio Sobre a Cegueira" e o cão assume um papel ainda mais relevante no "Ensaio Sobre a Lucidez". Ambos podem ser interpretados como um símbolo da conexão emocional e fidelidade resistente aos desafios do caos branco. A cegueira branca e os votos brancos podem ser interpretados enquanto factores, de omissão e acção respectivamente, expositores da complexidade política e social da democracia. Esta mulher outrora unificadora num mundo de cegos, num mundo onde há novamente visão avista-se disruptiva, perigosa e ninguém atenta à sua vulnerabilidade. Se na cegueira o declínio foi garantido, nas eleições há que ser evitado. Se inicialmente o branco tira a visão às pessoas, quando a cegueira desaparece o poder da cor fica nas mãos do povo, agora sem véus e vendo realmente, o voto expressa-se na mesma cor branca, quase atestando estávamos cegos mas já não. Os dois livros apontam ilusões dos sistemas políticos onde nos inserimos. No extremo a lucidez desestabilizou a (pseudo)democracia, enfraquecendo o seu funcionamento e a integridade do indivíduo é colocada em causa. Nos dois contextos o branco impõe questões intrusivas. Os dois ensaios entregam o preço social de quem não cegou física nem mentalmente.

Gosto dos dois livros já os li há muito, até já reli "O Ensaio sobre a Cegueira". Entendo como necessário o final do "Ensaio sobre a Lucidez" e ainda estou longe de desculpar o José. A sociedade não tem a coragem da mulher do médico, ela nunca cegou e isto pesou-lhe como um estigma. O feito em "Ensaio Sobre a Lucidez" é imperdoável, só justificado em nome de uma aprendizagem maior, colocando uma espécie de maldição no próprio Saramago. O criador aniquila a criação, o que amas ser-te-á vedado. De alguma forma diz estás a ler és responsável, sente-se como um livro maldito.

Num exercício de esforço para tentar manter o blog lembrei-me de falar de uma surpresa literária do ano passado. O título deste texto seria "Rilke mas não rilkou", entretanto algo mais lato surgiu-me. Não serão só as cartas do Rainer Maria Rilke ao jovem Franz Xaver Kappus, o pequeno poeta, a sofrer por certo com erros de percepção ou magias editoriais.

Li pela primeira vez o "Letters to a Young Poet" em 2019 num mês de verão diria, atiro para Julho. Na altura fiquei fascinado pelas cartas do Rilke ao jovem rapaz. Não eram estas só uma espécie de manual para a arte, para estar na vida. Eram uma luz numa mente (a minha) naturalmente com tendências para a escuridão. Enquanto lia o livro o fascínio levou-me a partilhar no instagram o quão maravilhosa estava a ser a experiência de leitura e algo estranho aconteceu. Não estando eu habituado, porque jamais me habituarei, à maluquice das massas humanas nas redes sociais, eis alguém a ver-me ler o livro, digo nas massas mas na verdade foi só uma pessoa, entra em contacto comigo e diz ir lê-lo comigo. Petrifiquei e pensei, comigo? Como é isto de se ler assim comigo? Só aceitei, sorri acenei e continuei a ler como sempre li, sozinho. Terminei o livro e a magia permanecia. Estava encantado pelas palavras de Rilke, da esperança entregue, onde de alguma forma me era dito nada ser vão, mesmo a escuridão, solidão.

Passaram meses e soube de uma nova edição do livro onde estariam incluídas as cartas do jovem poeta. Não só as cartas do Franz Kappus, mas também uma suposta carta apagada. Ainda hoje não sei porque as pessoas se impigem em leituras alheias. Solidão talvez, artes menos óbvias de insurgimento na vida alheia. Brincam com os livros e as leituras não como as crianças brincam, antes adultos falhos no crescer. Se é belo existirem crianças já crescidas, adultos pueris surgem-me assustadores. No ano passado lá comprei esta nova edição das cartas. Achava estar a adquirir um livro onde a entrega do encantamento seria exponencial, isto pela desculpa da reciprocidade da correspondência. Já Eça nos dizia falharmos a vida pensada com a imaginação. Se achamos algo invarialmente assim a vida dará algo de distinto, e a releitura não correu como o esperado. Cartas a um Jovem Poeta

Eis Junho de 2022 e eu a reler a nova edição (visível na fotografia deste texto). À medida da leitura articulava as cartas do jovem rapaz com as de Rilke e começo a entender sentidos anteriormente vedados pela falta das cartas do rapaz. As cartas do Rilke não perderam valor, antes as do rapaz não acrescentaram algo ao dito pelo poeta. Diminuiram até a amplitude de algumas ideias antes não direccionadas. Kappus não me pareceu um jovem particularmente inocente, ou melhor, desinteressadamente interessado em Rilke. Por consequência a perda da amplitude vaga e magia das respostas de Rilke agora no particular deste rapaz ganhou em realidade a leitura. Se ambas as edições entregam ao leitor não ficção, numa há um quimerismo ficcional e na outra este é preenchido por um lugar mais telúrico. Rilke não escrevia para uma espécie de versão imatura de si mesmo, aqui percebemos o importante. O rapaz ajuda-nos a situar Rilke no tempo, no espaço e atribui uma fricção real aos textos da edição sem as cartas do jovem.

O "Letters to a Young Poet" agrega admiração de nomes vários ao longo dos tempos: Marylin Monroe, Konrad Zuse, Dustin Hoffman ou até mesmo a tatuagem de Lady Gaga. Os editores sabiam nesta nova edição um outro livro. Um outro livro que Franz Kappus proporcionou e assim, de forma querida, mantiveram as cartas de Rilke agregadas. Quem quiser ler as do rapaz só tem de ir alternando entre páginas e intercalando. Uma experiência mais real, entendedora do poeta e sem negar a magia da unilateralidade das cartas de Rilke sozinhas, enquanto unidade não ficional ficcionada.

Apesar de os seus estilos literários serem diferentes os dois escritores dos meus últimos livros lidos demonstram uma habilidade notável para criar personagens e ambientes realistas de forma expressiva e evocativa. Através de imagens vívidas de uma ideia sobre sociedade portuguesa, em épocas diferentes, aplicam elementos culturais comuns: o nosso conservadorismo, hospitalidade, até mesmo uma éspecie de Fado (esta ideia, a desenvolvê-la, desviar-me-ia do assunto deste texto). Embora não contemporâneos e distintos entre si, Júlio Dinis e José Cardoso Pires têm em comum o facto de serem escritores portugueses empenhados nos temas sociais e políticos inseridos nas suas obras, recorrendo a um estilo único e (aparentemente) simples.

Seja a retratar a vida rural de Portugal do século XIX ou as tensões políticas da ditadura salazarista no século XX, os dois escritores fazem literatura ao dar voz a marginalizados e oprimidos pela denuncia de variadas injustiças sociais. A simplicidade das narrativas de Júlio Dinis e José Cardoso Pires pode ser uma característica comum, mas isto não implica uma facilidade em escrever de forma clara, concisa, e ainda assim ter uma voz distinta. Nestes contornos torna-se paradoxal a elementaridade da escrita destes escritores, pois ela existe em cada um associada a um estilo único. Esta simplicidade narrativa, para mim não existente, dá uma ideia de facilidade, mas na verdade são formas de escrita sofisticadas, requerem um elevado nível de trabalho e talento para serem bem-sucedidas.IMG_6112.jpeg

O domínio da língua, bem como um entendimento do assunto sobre o qual escrevem torna-se essencial e isto parece-me surgir à custa do talento muito específico de trabalharem imenso. Ambos o faziam. É preciso escolher a palavra certa, construir coerência e criar ritmos agradáveis, tudo isto enquanto há clareza, precisão e muitas vezes com mais de um sentido inerente. Neste espaço comum da simplicidade acontece muitos leitores acabarem por subestimar a dificuldade de se escrever de forma articulada e simples. Aprecia-se o texto pela sua epiderme e isto surge-me redutor, ou entrega-se esses escritores ao esquecimento por se acharem datados ou menores. A facilidade das opiniões de leitura hoje debitadas dizem muito mais dos leitores, não tanto do trabalho do escritor. Contudo vemos o trabalho sério deste último na faca pela leitura frívola, exercida apenas na tangibilidade do prazer imediato não só do livro, mas também da rede social. Não precisamos de tempo para ler melhor, precisamos apenas de o fazer.

Assim, José Cardoso Pires parece-me surgir como uma sombra imaterializada do homem vencedor do Nobel, agora chamam-lhe mestre. Júlio Dinis pecou por não ser Camilo ou Eça ,e arrisco a dizer só se 'entender' Eça. Daqui decorre não somente a perda de cultura, perde-se literatura por si só não abundante. Há uma falta de espaço porque ocupado por esse caudal maior onde o resto tem de funcionar como menor até secar. O paradoxo da escrita simples surge-me da aparente contradição entre a simplicidade e a dificuldade de alcançá-la com eficácia, dos mecanismos de entrega onde a maioria não tira proveito na leitura. Há os escritores para estúpidos e outros não lêem escritores interiorizados como fazê-los passar por tal. Há formas de escrita de uma simplicidade árdua, e estes dois escritores para o seu mal talvez o tenham feito bem demais.

Sobre

21aafb00b84d1f9249b0b9a10481d2f3.pngO blog enquanto página pessoal tem como objectivo trazer um registo da vida que se insurge à correria do dia a dia, intervalos no intervalo. O "breve intervalo" surge como pausa, reflexão e memória do não empregue nos meus cadernos. Ao fim, essa outra vida trivial: a das opiniões, dos passeios, do não se querer esquecer e manter em permanente rascunho.

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