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E fez da vida ao fim…

breve intervalo

E fez da vida ao fim…

Acabei por não falar de uma das semanas de férias feitas no ano passado. Na verdade acabei por também não falar das do ano anterior, a ver se aos poucos lá chego. Decidimos em Maio de 2023 rumar ao Alentejo, o percurso foi longo e durante aquela semana não parámos. Agora numa angústia de ser, saudade de existir quero escrever essa semana, decidi começar esta série de posts. Não sei quanto vou falar dessa semana, quanto haverá a ser dito, mas este sentimento merece um registo para mais tarde não se ver apenas esquecido, isolado em mim.

Acordámos relativamente cedo e o primeiro destino traçado era Tomar. Chegados à cidade do Convento de Cristo, visitado de seguida, fomos antes tomar um pequeno almoço banal num café igualmente comum, onde a espera foi longa e a paciência não abundava. O dia era de sol na segunda semana de Maio, tivemos sorte para a aventura, o calor para o sul ainda era suportável e não sofremos com os rigores do inverno. Despachados do pequeno almoço rumámos ao convento, um gigante à distância, desproporcional no contexto da cidade. Ao chegar lembro as papoilas na terra, do aqueduto imponente e da entrada cheia de crianças a serem crianças, fugimos do caos, subimos e entramos no Convento de Cristo. 

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Durante a visita ficava o deslumbramento nas contradições do espaço. Da igreja não sei palavras para descrever, cada vez mais percebo o fascínio pela arte sacra. Lembro-me do José Saramago no seu "Viagem a Portugal", um dos seus melhores livros e desta sua predilecção. José assume no livro as suas paixões pelo convento desde portas a claustros, da charola na igreja dila ser "sol radiante e umbigo do mundo", mas da arquitectura, na sua subjectividade, lamenta um convento frio, seco, e direi eu por esse mesmo motivo ele me parecer quente. Conta ainda a história do guia dizendo-lhe todos quererem casar aqui, das pessoas arrancarem crostas de parede provavelmente para recordação e nisto Saramago determina "É proibir os casamentos." Proíbam-se. Também não sei palavras para a imponência das misturas arquitectónicas dentro do mesmo complexo em braço de ferro com a humilde pequenez dos dormitórios espalhados pelo interminável corredor. Ainda me lembro de ver a sala de aquecimento dos mesmos, onde manteriam o fogo aceso para direccionar quentura, e essas vidas distantes pareceram-me então mais próximas e semelhantes.

As fotografias excluem, diminuem a ida a um edifício que rasgou séculos, um exercício de contemplação e audição de tempo, vida, a minha tentativa de decifrar esses sentires impregnados nas pedras. Terminada a visita, mente em espanto, manhã avançada, carro de novo e caminho a Redondo onde íamos almoçar e ficar. Antes parámos para esticar as pernas em Galveias, ver num piscar de olhos a terra do escritor José Luís Peixoto. A preguiça já me fala, lembro as papoilas na terra, vou parar para esticar as pernas e disto falo num próximo post.

Sobre

21aafb00b84d1f9249b0b9a10481d2f3.pngO blog enquanto página pessoal tem como objectivo trazer um registo da vida que se insurge à correria do dia a dia, intervalos no intervalo. O "breve intervalo" surge como pausa, reflexão e memória do não empregue nos meus cadernos. Ao fim, essa outra vida trivial: a das opiniões, dos passeios, do não se querer esquecer e manter em permanente rascunho.

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