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E fez da vida ao fim…

breve intervalo

E fez da vida ao fim…

As representações do padrão a ser seguido pouco mudam nas redes sociais. Se algum conceito alastra, estabelecendo-se comum, fica difícil existir online com alguma alternativa menosprezada por esse fluxo social principal. As redes no geral convidam à anulação do indivíduo, à propagação da idiotia pela conformidade e não contrastante da existência de conflito de ideias e visões. Ao podermos ser tudo o que quisermos, normalmente creio as pessoas escolherem ser o outro. Nisto fico com a certeza da resposta à pergunta se serão as opções escolhidas pela maioria realmente as melhores.

Há bastante tempo estava descontente com a forma como o Goodreads estagnou a sua plataforma, a forma pouco prática como a rede social se estabelecia priorizando talvez o mais importante para Bezos, não tanto o utilizador e as suas leituras. Na pandemia, em  2020, soube do surgimento de uma alternativa ao Goodreads, o The StoryGraph. Na altura a plataforma ainda estava em fase beta e vi então o seu potencial mas ainda limitado. Passados três anos reencontro a plataforma viva e de boa saúde, agora coesa e cheia de funcionalidades para quem gosta de rastrear as suas leituras, de estatísticas, mas não tanto de utilizar a rede como mais uma ferramenta com foco principal no social, aqui utilizando a desculpa dos livros para exercício de vaidade. Não vou discutir as funcionalidades, não é o meu propósito. Lá regressei e fiquei no The StoryGraph e estou muito contente naquele canto. Não sei quando vou apagar a conta do Goodreads, já a tinha apagado anteriormente, ia com mais de uma década de registos de leituras (do qual não fiz backup), ficará a conta para já estagnada e o The StoryGraph passa a ser a minha escolha.

Acho determinante ter sido criado por uma mulher negra, Nadia Odunayo, engenheira informática. Não que o facto seja justificativo da escolha, mas antes um asserto da qualidade do trabalho desenvolvido por mulheres e existir enquanto resposta a certos espaços monopolizantes de homens normativos brancos onde nada há a oferecer além desse grande fluxo social da idiotia a servir essa existência por si só já priviligiada, se podemos falar em níveis diversos de privilégio. A estimular o desenvolvimento seja do valor intrínseco associado a algo, do que surge como alternativa com soluções e foco no que é, até ver, importante a esses utilizadores. Os livros, as leituras dos indivíduos. Alguma socialização em volta disso e não o contrário, para isso já temos também o Instagram.

A obra de José Saramago é conhecida pela sua habilidade em explorar cenários partindo de uma suposição inicial "E se". E se as pessoas deixassem de morrer, e se alguém descobrisse ter outra pessoa igual a si, são exemplos. Dois dos seus livros, "Ensaio Sobre a Cegueira" e "Ensaio Sobre a Lucidez", não compartilham apenas semelhanças no título. Questionam respectivamente: e se uma cegueira branca atingisse a humanidade, e se um dia as pessoas votassem todas em branco? Queria rabiscar sobre a minha experiência com os dois livros, como se ligam em mim, cegueira e lucidez a entrelaçar-se no branco e pelo final só me resta um incómodo profundo.

O "Ensaio Sobre a Cegueira" apresenta-nos uma sociedade afectada por um surto de cegueira branca. Conforme a cegueira espalha-se as personagens enfrentam uma luta pela sobrevivência numa sociedade em colapso. Esta cegueira pode ser vista como metáfora para a falta de empatia, compreensão ou num sentido mais amplo, conexão humana. No "Ensaio Sobre a Lucidez", que pode ser entendido como uma sequela, o José Saramago mais uma vez joga com a metáfora da cegueira, agora de forma não tão óbvia. Na lucidez a cegueira assume a forma de ilusão, a ilusão dos votos brancos numa eleição. Quando a maioria dos votos da eleição são brancos a sociedade fica perplexa e a história desenvolve-se na exploração das ramificações políticas e sociais do acontecimento. A lucidez surge como a rejeição da complacência e uma busca por clareza moral e política, uma antítese à cegueira generalizada do primeiro livro. Ainda assim esta lucidez de alguma forma deixa-se cegar.

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Um aspecto intrigante (ou não tanto) destes dois livros é a presença da mulher do médico e do cão das lágrimas. A mulher do médico destaca-se em "Ensaio Sobre a Cegueira" e o cão assume um papel ainda mais relevante no "Ensaio Sobre a Lucidez". Ambos podem ser interpretados como um símbolo da conexão emocional e fidelidade resistente aos desafios do caos branco. A cegueira branca e os votos brancos podem ser interpretados enquanto factores, de omissão e acção respectivamente, expositores da complexidade política e social da democracia. Esta mulher outrora unificadora num mundo de cegos, num mundo onde há novamente visão avista-se disruptiva, perigosa e ninguém atenta à sua vulnerabilidade. Se na cegueira o declínio foi garantido, nas eleições há que ser evitado. Se inicialmente o branco tira a visão às pessoas, quando a cegueira desaparece o poder da cor fica nas mãos do povo, agora sem véus e vendo realmente, o voto expressa-se na mesma cor branca, quase atestando estávamos cegos mas já não. Os dois livros apontam ilusões dos sistemas políticos onde nos inserimos. No extremo a lucidez desestabilizou a (pseudo)democracia, enfraquecendo o seu funcionamento e a integridade do indivíduo é colocada em causa. Nos dois contextos o branco impõe questões intrusivas. Os dois ensaios entregam o preço social de quem não cegou física nem mentalmente.

Gosto dos dois livros já os li há muito, até já reli "O Ensaio sobre a Cegueira". Entendo como necessário o final do "Ensaio sobre a Lucidez" e ainda estou longe de desculpar o José. A sociedade não tem a coragem da mulher do médico, ela nunca cegou e isto pesou-lhe como um estigma. O feito em "Ensaio Sobre a Lucidez" é imperdoável, só justificado em nome de uma aprendizagem maior, colocando uma espécie de maldição no próprio Saramago. O criador aniquila a criação, o que amas ser-te-á vedado. De alguma forma diz estás a ler és responsável, sente-se como um livro maldito.

Num exercício de esforço para tentar manter o blog lembrei-me de falar de uma surpresa literária do ano passado. O título deste texto seria "Rilke mas não rilkou", entretanto algo mais lato surgiu-me. Não serão só as cartas do Rainer Maria Rilke ao jovem Franz Xaver Kappus, o pequeno poeta, a sofrer por certo com erros de percepção ou magias editoriais.

Li pela primeira vez o "Letters to a Young Poet" em 2019 num mês de verão diria, atiro para Julho. Na altura fiquei fascinado pelas cartas do Rilke ao jovem rapaz. Não eram estas só uma espécie de manual para a arte, para estar na vida. Eram uma luz numa mente (a minha) naturalmente com tendências para a escuridão. Enquanto lia o livro o fascínio levou-me a partilhar no instagram o quão maravilhosa estava a ser a experiência de leitura e algo estranho aconteceu. Não estando eu habituado, porque jamais me habituarei, à maluquice das massas humanas nas redes sociais, eis alguém a ver-me ler o livro, digo nas massas mas na verdade foi só uma pessoa, entra em contacto comigo e diz ir lê-lo comigo. Petrifiquei e pensei, comigo? Como é isto de se ler assim comigo? Só aceitei, sorri acenei e continuei a ler como sempre li, sozinho. Terminei o livro e a magia permanecia. Estava encantado pelas palavras de Rilke, da esperança entregue, onde de alguma forma me era dito nada ser vão, mesmo a escuridão, solidão.

Passaram meses e soube de uma nova edição do livro onde estariam incluídas as cartas do jovem poeta. Não só as cartas do Franz Kappus, mas também uma suposta carta apagada. Ainda hoje não sei porque as pessoas se impigem em leituras alheias. Solidão talvez, artes menos óbvias de insurgimento na vida alheia. Brincam com os livros e as leituras não como as crianças brincam, antes adultos falhos no crescer. Se é belo existirem crianças já crescidas, adultos pueris surgem-me assustadores. No ano passado lá comprei esta nova edição das cartas. Achava estar a adquirir um livro onde a entrega do encantamento seria exponencial, isto pela desculpa da reciprocidade da correspondência. Já Eça nos dizia falharmos a vida pensada com a imaginação. Se achamos algo invarialmente assim a vida dará algo de distinto, e a releitura não correu como o esperado. Cartas a um Jovem Poeta

Eis Junho de 2022 e eu a reler a nova edição (visível na fotografia deste texto). À medida da leitura articulava as cartas do jovem rapaz com as de Rilke e começo a entender sentidos anteriormente vedados pela falta das cartas do rapaz. As cartas do Rilke não perderam valor, antes as do rapaz não acrescentaram algo ao dito pelo poeta. Diminuiram até a amplitude de algumas ideias antes não direccionadas. Kappus não me pareceu um jovem particularmente inocente, ou melhor, desinteressadamente interessado em Rilke. Por consequência a perda da amplitude vaga e magia das respostas de Rilke agora no particular deste rapaz ganhou em realidade a leitura. Se ambas as edições entregam ao leitor não ficção, numa há um quimerismo ficcional e na outra este é preenchido por um lugar mais telúrico. Rilke não escrevia para uma espécie de versão imatura de si mesmo, aqui percebemos o importante. O rapaz ajuda-nos a situar Rilke no tempo, no espaço e atribui uma fricção real aos textos da edição sem as cartas do jovem.

O "Letters to a Young Poet" agrega admiração de nomes vários ao longo dos tempos: Marylin Monroe, Konrad Zuse, Dustin Hoffman ou até mesmo a tatuagem de Lady Gaga. Os editores sabiam nesta nova edição um outro livro. Um outro livro que Franz Kappus proporcionou e assim, de forma querida, mantiveram as cartas de Rilke agregadas. Quem quiser ler as do rapaz só tem de ir alternando entre páginas e intercalando. Uma experiência mais real, entendedora do poeta e sem negar a magia da unilateralidade das cartas de Rilke sozinhas, enquanto unidade não ficional ficcionada.

Sobre

21aafb00b84d1f9249b0b9a10481d2f3.pngO blog enquanto página pessoal tem como objectivo trazer um registo da vida que se insurge à correria do dia a dia, intervalos no intervalo. O "breve intervalo" surge como pausa, reflexão e memória do não empregue nos meus cadernos. Ao fim, essa outra vida trivial: a das opiniões, dos passeios, do não se querer esquecer e manter em permanente rascunho.

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